Conheça o primeiro bem imaterial brasileiro: as Panelas de Barro capixaba

Patrimônio imaterial brasileiro

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura que responde pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro.

Cabe ao Iphan proteger e promover os bens culturais do Brasil, materiais e imateriais, assegurando sua permanência e usufruto para as gerações presentes e futuras. (IPHAN, 2014).

Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas).

A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216, ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial (idem, 2014).

O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Isso se aplica ao primeiro ofício registrado pelo Iphan no Brasil, o modo de fazer as panelas de barro capixabas.

A fabricação das panelas de barro tem sua origem nas tribos indígenas que povoaram o litoral do Espírito Santo.

Mesmo com o passar dos anos, a técnica da produção e a estrutura social das artesãs pouco mudou.

O trabalho artesanal das paneleiras sempre garantiu a sobrevivência econômica de suas famílias, como também de suas tradições, preservadas na região de Goiabeiras, localizada na cidade de Vitória, no Espírito Santo.

Goiabeiras é o local de confecção das panelas de barro e por este motivo as artesãs ficaram famosas por Paneleiras de Goiabeiras.

Bem vindo a Paneleiras de Goiabeiras (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Bem vindo a Paneleiras de Goiabeiras (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

No início, o trabalho envolvia toda a família e o produto era fabricado no quintal das casas das paneleiras.

Há poucos anos, a Associação das Paneleiras, com apoio da Prefeitura Municipal de Vitória e de outros patrocinadores, construíram um galpão para concentrar toda a produção.

FABRICAÇÃO DAS PANELAS

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como patrimônio imaterial “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural” (Iphan, 2014).

Sendo assim, o primeiro bem cultural imaterial registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em dezembro de 2002, foi a prática artesanal de fabricação de panelas de barro pelas Paneleiras de Goaibeiras.

Indicação de procedência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Indicação de procedência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Na Associação das Paneleiras de Goiabeiras são realizados workshops de como fazer as panelas de barro.

O custo é de R$ 10,00 e você pode aprender todo o processo colocando a mão na massa com a ajuda de uma moradora local.

Eu participei de todo o processo de modelagem das panelas e vou explicar como a fabricação do primeiro bem imaterial brasileiro registrado pelo Iphan é feito.

1. EXTRAÇÃO DA ARGILA

A técnica de fabricação da legítima panela de barro obedece a padrões rígidos, sendo produzida com argila especial, só encontrada no Vale do Mulembá, zona oeste de Vitória.

Apesar disso, a argila encontrada nos mangues na área de Goiabeiras também estão sendo utilizados como matéria-prima na produção das panelas de barro, devido as propriedades minerais deste barro.

Mangue da região de Goiabeiras  (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Mangue da região de Goiabeiras (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Argila do mangue (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Argila do mangue (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Este é a primeira etapa do modo de fazer das panelas de barro que de fato inicia um ritual que conecta natureza e homem.

2. MODELAGEM

A etapa de modelagem é aquele momento que você põe literalmente a mão na massa!

É uma sensação de voltar a infância e brincar de modelar o barro, criando um formato de panela ao remover os excessos.

Modela-se a panela à mão, com o aproveitamento da água junto ao barro, produzindo a massa de argila.

panela de barro workshop

Fazendo a panela de barro (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Para obtenção do formato e tamanho desejados, utiliza-se um pedaço de coco que possui curvatura perfeita para moldar a panela.

É importante não molhar muito a argila e ir constantemente criando o formato desejado com as mãos.

moldagem de panela de barro

Panela de barro moldada (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

O processo é uma diversão a parte, mas para as paneleiras simboliza a continuidade de uma tradição que leva em conta a organização comunitária, a prospecção de mercados e a preservação do ambiente que guarda suas matérias primas essenciais: a jazida de argila e o mangue de onde é extraída a tintura de tanino.

3. SECAGEM

Após a modelagem, a panela é colocada para secar.

Muitas vezes o sol intenso da cidade de Vitória auxilia a agilizar o processo.

Panelas de barro secando ao sol (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Panelas de barro secando ao sol (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

As peças recebem também um polimento antes de irem para queima.

4. QUEIMA

Neste processo, as peças são colocadas sobre uma grande “cama” de madeira e são totalmente cobertas por uma camada de lenha.

Panelas de barro sobre a "cama" de madeira (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Panelas de barro sobre a “cama” de madeira (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Depois, ateia-se fogo em uma das cabeceiras da cama, dando início ao processo.

Panelas de barro capixaba

Panelas de barro capixaba (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

5. AÇOITE

Praticamente finalizando a fabricação das panelas de barro, o açoite é talvez a parte mais interessante de se presenciar, pois é nesta etapa que a panela de fato toma a coloração típica.

Uma tinta de tanino é preparada previamente para açoitar as panelas.

Quando as peças adquirem coloração avermelhada, são retiradas do fogo e açoitadas com o tanino.

Esse é o processo que dá a cor escura e brilhante das autênticas panelas de barro capixabas.

Como usar a panela de barro?

A verdadeira panela de barro capixaba, produzida nos mesmos modos dos antepassados, tem longa durabilidade.

Quando for usada pela primeira vez deve receber um “batismo” usando óleo.

Unte a parte interna da panela com óleo de cozinha e deixe-a no fogo para queimar todo este óleo.

Em seguida, deixe a panela esfriar e lave-a com água e bucha.

Este processo fará com que ela fique pronta para preparar deliciosos pratos!

No Brasil, é bastante afamado o artesanato típico da cidade de Vitória/ES , que consiste em panelas de barro, feitas artesanalmente pelas Paneleiras de Goiabeiras, sem o auxílio de forno, cozidas em fogueiras a lenha, e recebendo logo após, uma tintura de tanino num ritual conhecido como “sova” ou “açoite”, de acordo com a tradição holandesa.

As panelas variam de preço e tamanho, mas são comercializadas na faixa de R$ 10 (menor) e R$ 100 (maior).

Referências:

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Patrimônio Imaterial, 2014.

Festa das Paneleiras (material informativo). Paneleiras de Goiabeiras. sem data.

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