O mundo de Patricia Piccinini

A exposição das obras de arte ultra-realistas da artista plástica Patricia Piccinini é de causar um mix de sensações que vão do espanto ao afeto, do nojo à admiração, do carinho à piedade, da repulsa à empatia.

É estranho, mas a simples experiência de admirar as obras desta artista internacionalmente conhecida aflora nossas emoções e sensações.

Realmente parece que estamos lado a lado de criaturas que carregam um peso de emoções do cotidiano vivido por nós seres humanos.

SOBRE AS OBRAS

As obras de Patricia retratam criaturas imaginárias que levam ao contato de seu interesse na busca por descobrir o sentido de ser humano no âmbito da engenharia genética e biotecnologia, e como essas tecnologias influenciam na maneira como nos relacionamos com o mundo.

Devido a estas inquietações, seus trabalhos não desejam retratar um pesadelo futurístico de alterações genéticas inimagináveis a nossa realidade nem um progresso descomunal da ciência.

Ao invés disso, foca no que poderia ser a realidade interna e sentimental dessas criaturas que apesar de estranhas e por vezes inquietantes, demonstram uma vulnerabilidade maior que qualquer outro sentimento de estranheza.

Assim, com suas obras, Patricia explora a incerteza entre o futuro geneticamente modificado e a imaginação livre de nosso sonho coletivo, os fascínios do inconsciente humano e nossos medos.

Todas as obras possuem uma variedade de materiais e linguagens, desde esculturas hiper-realistas feitas de silicone e fibra de vidro, fotografia e vídeo, bem como desenho e pintura.

EXPOSIÇÃO

A exposição ComCiência, é um neologismo que carrega sentido duplo, conectando consciente e ciência, e propõe ao público um percurso narrativo entre esculturas, desenhos, fotografias e vídeos.

Agora que você já compreendeu as influências artísticas de Patricia Piccinini, conheça algumas de suas obras que estão em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em São Paulo:

GRANDE MÃE (2005)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, couro, cabelo humano, poliuretano.

Grande Mãe - Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Grande Mãe – Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Amamentando o bebê (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Amamentando o bebê (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Imagine um macaco ou uma ama de leite geneticamente modificada para amamentar nossos filhos no futuro. A ciência nos apresenta este tipo de possibilidade, o que nos faz questionar a história ancestral da maternidade diante da dinâmica do mundo contemporâneo.

O TÃO ESPERADO (2008)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, couro, cabelo humano, roupas.

O Tão Esperado - Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

O Tão Esperado – Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Em “O Tão Esperado”, Patricia Piccinini faz uso da emoção para falar sobre a ética flexível, a atransformação do tempo e o amor entre as espécies. Uma figura, que parece mais velha, descansa no colo do menino. Ela foi inspirada em um dugongo, animal que possivelmente deu origem ao mito das sereias. A harmonia entre ambos exixte no plano real e no plano do sonho que compartilham. O tempo de espera torna-se irrelevante diante do tempo do amor.

O OBSERVADOR (2010)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, aço, cabelo humano, roupas, cadeiras.

O observador - Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

O observador – Exposição Comciência (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Uma sensação de inquietude se destaca nesta obra, na qual um jovem garoto encontra-se pendurado de forma insegura no topo de uma pilha de cadeiras. Ele observa quem passa, possivelmente julgando cada um de nós, a partir de seus próprios critérios.No mesmo momento, nos preocupamos com a estabilidade duvidosa das cadeiras que parece estar pronta para entrar em colapso a qualquer momento.

A CONFORTADORA (2010)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, aço, pelo de raposa, cabelo humano, roupas.

A Confortadora - Exposição Comciência (Foto: Patricia Piccini

A Confortadora – Exposição Comciência (Foto: Patricia Piccini)

Uma menina adolescente encostada na parede com corpo cabeludo possui uma modificação genética conhecida como hipertricose, contudo ainda possui uma beleza diferenciada, até pelo que a difere. Seu instinto maternal é celebrado sem nenhum tipo de preconceito, confortando e afagando a criatura morfa que está em seus braços. A obra traz a reflexão de que, independente do jeito que seus filhos e filhas nascerem, os pais ainda os amarão incondicionalmente.

ESFINGE (2012)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, cabelo humano e animal, bronze.

Esfinge (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Esfinge (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Ao contrário do que se espera de esculturas hiper-realistas, esta obra possui uma representação indefinida. Foi criada para ter uma função única: a reprodução. Sua forma foi inspirada nas estatuetas de Vênus pré-históricas, e sua postura, na esfinge egípcia. É uma inversão contemporânea da representação da beleza e fertilidade.

METAFLORA (2015)

Materiais: Silicone, bronze, fibra de vidro, cabelo humano.

Metaflora de Patricia Piccinini (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Metaflora de Patricia Piccinini (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Com estruturas de plantas, as “Metafloras” de Patricia Piccinini contêm hastes longas das quais brotam flores compostas de carne, cabelo, línguas e garras. Como plantas, elas parecem necessitar de algo além da luz do Sol para crescer, pois subiram um ou dois lugares na escala da cadeia alimentar. As duas obras nos fazem pensar nas consequências do cultivo de alimentos geneticamente modificados.

FLOR BOTA (2015)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, cabelo humano.

Flor bota de Patricia Piccinini (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Flor bota de Patricia Piccinini (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Esta obra é a mais recente de Patricia Piccinini. Ela é feita a partir de uma bota de couro, que simboliza a transformação de um animal em um objeto, que vira vegetal. É uma flor que põe ovos e tem inoculada em si o desejo de reprodução e, consequentemente, de sobrevivência. Disposta em um jardim de flores em forma de ovários, esta peça articula a fragilidade da flor com a assertividade poderosa da bota dentro do universo feminino.

A FORÇA DE UM BRAÇO (2009)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, cabelo humano, roupas, cabra-montesa

A Força de um Braço (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

A Força de um Braço (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Quem e o que é esta figura que se equilibra em uma cabra? De longe, ela se assemelha a um garoto forte, talvez até um atlera olímpico. Mas há algo de incomum em seu corpo: ele não é 100% humano. Difícil definir de onde ele veio, talvez do mar, já que seu pé lembra a cauda de um golfinho. A conexão com a acrobática cabra canadense dá pistas de outras fontes genéticas de vigor. Seriam os seres modificados em laboratório protagonistas de novos recordes? Ao carregarem a genética de outros animais, seriam espécies superiores? Ou seriam super-heróis?

SUBSTITUTO (2005)

Materiais: Silicone, poliuretano, couro, compensado, cabelo humano.

Substituto (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Substituto (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Bebês vombates (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Bebês vombates (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Para evitar que espécies fossem extintas, desenvolveu-se uma nova linhagem de vombates. Esse tipo de marsupial australiano carrega diversos filhotes ameaçados em suas costas – ele funciona como uma chocadeira animal. Não seria mais simples, porém, parar de destruir o habitat natural destes seres e deixá-los procriar livremente? Patricia Piccinini nos convida a pensar por que é tão difícil abrir mão de nosso próprio conforto e por que somos tão fascinados por novas tecnologias.

O VISITANTE BEM-VINDO (2011)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, cabelo humano, roupas, pavão taxidermizado.

Olhar caridoso e sem medo da menina (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Olhar caridoso e sem medo da menina (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Pavão representando a beleza (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Pavão representando a beleza (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Na cama, vemos uma garorinha ao lado de um ser assustador. Sem medo, ela está verdadeiramente fascinada por esse criatura tão distinta. O encantamento está em seus olhos, o estranhamento, nos nossos. O título desta obra foi inspirada em uma frase do pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe. Ele dizia: “Beleza é um convidado bem-vindo em qualquer lugar”. Na cena, também há um pavão, animal cuja maior vantagem seletiva é a beleza. Suas penas coloridas pouco servem para caçar ou lutar, mas se destacam pela exuberância. Esta obra questiona a construção do pensar no que realmente é belo.

DE BRUÇOS (2011)

Materiais: Silicone, fibra de vidro, cabelo humano, feltro.

bebê geneticamente modificado (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

bebê geneticamente modificado (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Se você pudesse ter características de um animal, qual escolheria? Ou se pudesse passar uma carga genética para seu filho, o que mais priorizaria? O bebê que carrega traços de morcego suscita essa questão e nos instiga a imaginar que tipo de adulto ele será. Conseguirá se localizar em locais escuros com a ajuda de seus ouvidos que cptam pulsações sonoras? Irá se alimentar de frutas ou de outros animais? Recém-vindo ao mundo, não se parece dar conta de sua singularidade, o que nos faz pensar: quais serão as novas combinações genéticas que vamos querer induzir ao mundo?

OS AMANTES (2011)

Materiais: fibra de vidro, tinta automotiva, couro, peças de lambretas.

No momento em que a mecânica é inoculada com o orgânico, o nascimento do amor torna-se um possível efeito colateral, permitindo que as máquinas abandonem suas funções e formas em nome de uma emoção. A doçura e a intimidade de “Os Amantes” contradizem a imagem de dureza dos materiais inanimados. Neste universo as máquinas não precisam mais de nós.

HIGHLANDER (2005),  MISTRAL (2005), LOBO CARMESIM (2007)

Materiais: fibra de vidro, tinta automotiva, couro, aço.

Mecânica transformada (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Mecânica transformada (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

A fronteira que separa o mundo natural do artificial está realmente clara? Para Patricia Piccinini, essas fronteiras são extremamente permeáveis. Os animais híbridos da série “Cyclepups”, chamados de “Highlander”, “Mistral” e “Lobo Carmesim”, exalam uma ternura que imediatamente concoca a empatia do espectador. Eles refletem a ideia da customização orgânica que a biotecnologia permite, o que, para a artista, é uma força positiva que resulta na criação de novos seres. Na cultura do carro, a customização representa a criatividade do indivíduo. Uma máquina que poder ser transformada em algo único e pessoal, destacando a relação entre a criação, o criador e o mundo. A comparação com um girino, um pequeno sapo, é inevitável. No sentido metafórico, estas obras também representam o lado masculino do trabalho de Patricia Piccinini.

RADIAL (2005)

Materiais: fibra de vidro, tinta automotiva, aço inoxidável.

Radius (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Radial (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

FANTASMA (2012)

Materiais: silicone, fibra de vidro, cabelo humano, tinta automotiva.

Fantasma (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Fantasma (Foto: Matheus Pinheiro de Oliveira e Silva)

Agora que você conheceu um pouco das obras ultra-realistas da artista Patricia Piccinini, que tal ir conhecê-las?

Observação: os descritivos das obras acima foram retirados dos textos indicados nos painéis na exposição ComCiência. Para saber acesse o site oficial do CCBB.

ComCiência
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro, São Paulo. Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô)
Quando: Até 4 de janeiro de 2016
Horário: Segundas, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos, das 9h às 19h
Quanto: Gratuito

Para poder acessar a exposição ComCiência, deve agendar um horário clicando aqui ou retirar os ingressos na bilheteria do CCBB.

O recomendável é agendar o horário pelo app ou site do Ingresso Rápido, pois as filas para retirada de ingressos no CCBB podem ser demoradas!

BIOGRAFIA DA ARTISTA

Patricia Piccinini nasceu em Freetown, em Serra Leoa em 1965 e mudou-se para Austrália com sua família em 1972. Estudou pintura na Faculdade Victoria de Artes de  Melbourne e, logo após finalizar sua graduação, ingressou no projeto Basement Gallery, na qual foi coordenadora durante dois anos. Desde então ganhou o prêmio Australia Council New Media em 2001 e a residência Australia Council em 2006, sendo convidada a expôr em diversas instituições de cultura, museus e galerias.

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