Como o planejamento estratégico de Barcelona reinventou a metrópole?

BARCELONA: PLANEJAMENTO E GESTÃO, UM CASO DE SUCESSO?

A globalização surge em contexto mundial com intensa e rápida troca de informações e alteração da economia, que passa a operar em escala global.

As cidades são os personagens principais dos processos ocorridos neste contexto, tornando um desafio para a administração pública a “(…) redefinição de gestão urbana, que deverá levar em conta os novos processos tecnológicos, culturais e institucionais. O cenário ao qual esta gestão se insere passa a ser, portanto, cada vez mais complexo”. (Fernandes, 2008, p.14).

Essas mudanças não afetam somente a economia e a tecnologia, impactam também na cultura, na comunicação, nas instituições políticas, na sociedade como um todo e em suas relações.

Especialmente, a comunicação vem passando por profundas mudanças principalmente com o advento da internet, que multiplica o intercâmbio das fontes de informação, mas restringe seu acesso a um grupo da sociedade. Como consequência, a sociedade se encontra cada vez mais organizada em torno de símbolos e de sua produção e manipulação (BORJA e CASTELLS, 1999 apud FERNANDES, 2008).

Assim sendo, as cidades mais estruturadas e mais influentes em contexto mundial começam a se denominar cidades globais: “metró­poles que, a partir da década de 70, adquiriram papéis de destaque nas funções de organiza­ção e controle sobre a economia global e sobre os fluxos de investimentos em escala planetá­ria.” (SASSEN, 1999 apud LIRA, 2011, p.283).

As cidades globais se ligam com a economia global, articulando as redes informacionais e concentrando poder mundial, ao mesmo tempo em que concentram diversos segmentos da população.

Nessas cidades existe o melhor e o pior tratando-se de estrutura urbana, tornando o planejamento ainda mais relevante. Deve-se considerar que essas cidades são pontos nodais, logo, o futuro de alguns países ou regiões pode depender do gerenciamento e evolução dessas áreas. (CASTELLS, 1999 apud FERNANDES, 2008).

Barcelona, localizada a nordeste da Espanha, é a capital da comunidade autônoma da Catalunha e a segunda maior e mais influente cidade do país, após a capital, Madri.

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Localização de Barcelona (Foto: Adaptação Google imagens)

A cidade vislumbrou a oportunidade de crescimento econômico e investimentos público-privados, além da visibilidade mundial, anos antes de sua candidatura, em 1986, para sediar as Olimpíadas de 1992. “Um evento do porte dos Jogos oferece oportunidade de atenção mundial para moldar ou remoldar a imagem da cidade e do país no plano internacional.” (TAVARES, 2005, p.71).

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Logo dos Jogos Olímpicos de 1992 (Foto: Olympic Games)

Além do fato de se “lançar” para o mundo como economia global e segunda maior cidade mais influente da Espanha, o motivo político também era abordado para destacar a cidade como exemplo de gestão e planejamento. “Barcelona 1992, por sua vez, marcou a abertura da Espanha para o mundo como um país democrático, afastando-se definitivamente da imagem da ditadura de Francisco Franco”. (TAVARES, 2005, p.72-73)

Assim sendo, Barcelona escreve seu futuro com planejamento e gestão que servem de modelo para várias outras cidades do mundo e, atualmente, está em seu quarto plano estratégico que envolve uma área de atuação regional composta de 36 municípios participantes.

Apesar de tudo, todas as ações têm seus prós e contras e toda grande cidade possui suas áreas menos abastadas, porém essa problemática não tira o crédito de Barcelona e seu sucesso vem sendo colhido até os dias de hoje, resultado significativo de sediar um megaevento global.

PLANOS ESTRATÉGICOS

O planejamento estratégico de um município é mais que um plano de governo, uma vez que seu horizonte temporal é maior do que qualquer mandato, é também uma proposta da sociedade para o futuro do local e visa garantir uma continuidade no planejamento municipal independente de quem esteja no poder; busca espelhar uma visão de futuro compartilhada entre os agentes envolvidos no processo de sua elaboração e implementação; busca a valorização, a atração e a localização de diferentes investimentos no território municipal, passa a inserir a cidade no mercado mundial de cidades, fazendo os governos locais operarem em sinergia com a lógica público-privada. (PFEIFFER, 2000 apud FERNANDES, 2008, p.26).

“No caso de Barcelona houve o protagonismo da iniciativa pública frente à liderança da estruturação da cidade em torno dos jogos.” (MONCLÚS, 2003 apud FERNANDES, 2008, p.42).

1º PLANO ESTRATÉGICO

Em seu primeiro plano estratégico, Barcelona, conforme Santacana (1988) apud Fernandes (2008, p.82) buscava se firmar como uma cidade pertencente ao cenário turístico e econômico europeu, projetando uma visão futura de metrópole europeia dinâmica, assentada na macrorregião da Catalunha, com qualidade de vida moderna, socialmente equilibrada e culturalmente solidificada.

De acordo com Compans (2004) apud Fernandes (2008, p.82):

A instauração de uma nova ordem institucional na Espanha após a queda do regime franquista conferiu maior autonomia política e econômica às cidades espanholas, atribuindo-lhes novas competências em matéria urbanística e ampliando substancialmente sua participação no gasto público total. Isso permitiu (…) protagonizar um processo de reestruturação urbana e econômica que teve início na segunda metade dos anos 80, para o qual contribuiu decisivamente a realização dos Jogos Olímpicos de 1992. Desde o anúncio da escolha da cidade para sediar este grande evento, em 1986, o governo local decidira utilizá-lo para alavancar um processo de desenvolvimento fundado na cooperação público-privado, na melhoria dos serviços e da infra-estrutura urbana e na modernização e inserção competitiva da cidade no cenário internacional. Entretanto, algumas ações visando à dinamização da economia local já haviam sido iniciadas em 1985, com a criação de uma série de empresas municipais de capital misto voltadas ao fomento da atividade econômica e à melhoria das infraestruturas de transportes e de telecomunicações. A promoção econômica foi ainda buscada por meio da gestão mista de grandes infra-estruturas de acessibilidade (…) e da constituição de parcerias público-privado na promoção de atividades culturais, de turismo, de desenvolvimento urbano e de limpeza de fachadas e de monumentos. A taxa de desemprego, que chegara a 17,2% em 1986, recuou para 9,7% em 1989 (COMPANS, 2004, p.42-43 apud FERNANDES, 2008, p.82).

O enfoque de Barcelona era “se orientar no sentido da reabilitação de moradias no centro histórico como estraté­gia de preservação e reconstrução, e da reur­banização do espaço público.” (LIRA, 2011, p.284), aliado a melhor qualidade de vida e de progresso das pessoas, potencializar a indústria de serviços e configurar a cidade como centro de maior influencia de sua macrorregião.

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Barcelona e traçado urbano (Foto: Google imagens)

Acredita-se que a reconfiguração urbana abriria caminho para o surgimento de novas atividades econômicas, atraindo mão de obra qualificada, realimentando os fluxos monetários e ampliando o mercado consumidor (OLIVEIRA, 2011, p.260). “(…) os megaeventos seriam apenas uma peça na engrenagem estabelecida no planejamento estratégico” (Idem).

Os Jogos Olímpicos foram sediados em Barcelona, em 1992, e funcionaram como meio de construção de “uma perspectiva nacional, um sentimento de vitalidade, de ser reconhecido e de tomar parte de um mundo moderno e tecnologicamente avançado” (DENIS ET AL., 1988, p. 229 apud TAVARES, 2005, p.72).

2º PLANO ESTRATÉGICO

Após dois anos, em 1994, Barcelona encaminha para seu segundo plano estratégico, elaborado com conceitos da globalização, em que a cidade “aproveitaria as grandes mudanças físicas ocorridas nos últimos anos e, a partir disto, aspiraria às oportunidades oferecidas às cidades por um mundo globalizado.” (SANTACANA, 1988 apud FERNANDES, 2008, p.85).

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Barcelona, cidade global (Foto: Google imagens)

Observa neste período que as políticas adotadas por Barcelona foram vislumbradas a um crescimento de longo prazo, incentivando a população a valorizar ainda mais a cultura catalã, distinguindo-se do restante da Espanha, abrindo o mercado para investimentos internacionais e reformulação dos espaços urbanos, dando vida a novas áreas que antes não tinham grande importância para a economia e dinamizando seu uso.

3º PLANO ESTRATÉGICO

Passados cinco anos, o terceiro plano estratégico muda novamente a escala do planejamento de Barcelona, conciliando os agentes econômicos e sociais e aprofundando o tema da região metropolitana como área produtora de riqueza e bem-estar social.

Segundo Santacana (1988) apud Fernandes (2008, p.86-87):

Em suma, o primeiro plano vai consolidar a metrópole européia, o segundo vai introduzir o conceito de globalização e o terceiro teria que partir de uma série de premissas que pensasse sobre a necessidade de aprofundar o tema da região metropolitana de Barcelona como área produtora de riqueza e de bem-estar social, um marco de uma Europa unida que necessita melhorar de posição.

4º PLANO ESTRATÉGICO

O quarto e último plano estratégico buscava renovar os setores da atividade econômica, garantir acessibilidade, mobilidade e qualidade de vida a população e procurar uma gestão eficiente do território da AMB (Área Metropolitana de Barcelona), que engloba 36 municípios.

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Barcelona a noite (Foto: Google imagens)

As medidas tomadas em todos os planos propuseram um foco para desenvolvimento econômico, sendo que investiram e modificaram a infraestrutura local, alavancou a visibilidade de Barcelona para o mundo a tornando uma cidade global. Todavia, essas ações fizeram com que Barcelona se tornasse uma “cidade produto”.

A cidade passa a ser uma mercadoria, e a administração pública passa a funcionar com a lógica do mercado, “a cidade é uma mercadoria ser vendidas, num mercado extremamente competitivo, em que outras cidades estão à venda” (VAINER, 2002, p.78 apud FERNANDES, 2008, p.88).

Barcelona encontrou seu sucesso no pré, durante e pós Jogos Olímpicos de 1992 com esta proposta de governo, que mesmo transformando a cidade em um mercado aberto para os investimentos internacionais e nacionais, soube se adequar e conseguiu aliar os agentes públicos e privados, estabelecendo uma sinergia entre Estado, sociedade e investidores, alargando as bases para criação de capital social induzido por políticas participativas. (EVANS, 1997 apud FERNANDES, 2008).

CONCLUSÃO

Um evento de grande porte como os Jogos Olímpicos de 1992 ofereceu a Barcelona a oportunidade para se destacar mundialmente. A cidade necessitava de um estímulo que a colocasse na “linha de frente” dos estados líderes da Europa. A análise da sua situação atual pode ser compreendida conhecendo as condições em que a organização das Olimpíadas foi realizada. (IGLESIAS, s/d).

Percebe-se que, no caso de Barcelona, o condicionante de maior influência na adoção, perpetuação e sucesso do planejamento estratégico foi o institucional. Condicionante este que manteve um equilíbrio entre os elementos relacionados às instituições catalãs, permitindo a criação e a continuidade de um processo de planejamento articulado entre agentes com objetivos comuns em torno de uma política pública estruturada. (FERNANDES, 2008, p.215).

Deu-se então, por meio da sinergia entre entidades públicas e privadas o surgimento de uma nova Barcelona, com a imagem de cidade global, desenvolvida e apta a receber cerca de mais de sete milhões* de turistas por ano e que ainda colhe os frutos do sucesso graças ao seu preparo, planejamento estratégico de longo prazo e gestão coesa entre o Estado e a comunidade.

REFERÊNCIAS

BARCELONA. Barcelona batirá en 2011 su récord de visitantes con 7,4 millones de turistas. Lavanguardia.com. Disponível em: <http://www.lavanguardia.com/vida/20111221/54241492348/barcelona-batira-2011-record-visitantes-con-7-4-millones-turistas.html>. 

FERNANDES, Janaína de Mendonça. O Planejamento Estratégico como instrumento de gestão em cenários complexos: Um estudo sobre os Planos Estratégicos do Rio de Janeiro e de Barcelona. 2008. 236 f. Tese (Doutorado em Administração) Curso da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (EBAPE), Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro.

IGLESIAS, Xavier. O cenário pós Jogos Olímpicos de Barcelona ’92. s.d. Disponível em: <http://www.gr.unicamp.br/ceav/revista/content/pdf/Escenario_post_Barcelona92_Iglesias_traduzido.pdf>. 

LIRA, Ana Carla Côrtes de. Contradições e políticas de controle no espaço público de Barcelona: um olhar sobre a Praça dels Àngels. Cad. Metrop., São Paulo, v. 13, n. 25, pp. 279-302, jan/jun 2011

OLIVEIRA, Alberto. A Economia dos Megaeventos: impactos setoriais e regionais. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n. 120, p. 257-275, jan/jul. 2011.

TAVARES, Otávio. Quem são os Vencedores e os Perdedores dos Jogos Olímpicos? Revista Pensar a Prática 8/1: 69-84, Jan./Jun. 2005

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