Reino Unido na Prática

TEXTO ENVIADO POR LUIZ RENATO FERREIRA GONÇALVES

Durante os meses de Novembro a Fevereiro, realizei um intercâmbio de “Qualificação Profissional em Turismo e Hospitalidade” subsidiado pelo Ministério do Turismo do Brasil.

Fui acolhido pela Association of Colleges do Reino Unido, na cidade de Newcastle upon Tyne, onde tive orientações em negócios e gestão turística, destinações turísticas do Reino Unido, cultura britânica e, também, a possibilidade de realizar atividades práticas relacionadas ao setor da hospitalidade.

Com o acesso a novas fontes de informações e pela própria observação empírica, pude notar fortes diferenças no impacto socioeconômico causado pelo turismo na Inglaterra, intensamente visitada por turistas dos demais países europeus, em relação ao impacto causado pelo fluxo modesto de turistas latino-americanos no Brasil.

Aulas práticas no Reino Unido (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Aulas práticas no Reino Unido (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Nas últimas décadas, a Inglaterra, berço da Revolução Industrial, vem diminuindo fortemente sua produção industrial tradicional, assim, também, o Reino Unido como um todo.

Nesse sentido, o setor de serviços tem crescido consideravelmente. O turismo, por exemplo, é a sexta maior indústria do Reino Unido, arrecadando £ 126.9 bilhões para a economia, 9% do PIB britânico (dados de 2013).

Na Inglaterra, desde 2010, 900 mil empregos foram criados, desses, 300.000 eram no Turismo (dados de 2014).

O maior centro de turismo do Reino Unido é Londres, que atrai milhões de turistas domésticos e internacionais, principalmente dos países europeus mais próximos, a cada ano.

Cabine de telefone público no Reino Unido (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Cabine de telefone público no Reino Unido (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

A atividade turística na Europa é amplamente desenvolvida e tem uma grande importância por seu potencial econômico, assim como por suas implicações sociais e ambientais.

Como publicado pela Eurostat, residentes da União Europeia, com mais de 15 anos de idade, fizeram 1.1 bilhão de viagens em 2013, sendo que muitas dessas viagens (75,3%) foram domésticas e que grande parte das demais não ultrapassavam as fronteiras da Europa.

Além do grande fluxo interno, capaz de manter a estabilidade e o crescimento da atividade, o continente ainda conta com uma grande massa de público estrangeiro, principalmente chineses, que alavanca os números das visitas e da receita.

Países europeus e norte-americanos também arrecadam com a atividade turística a partir da instalação de espaços de entretenimento, redes de alimentação e redes de hospedagem transnacionais em complexos turísticos externos, como os brasileiros, operando na imposição do padrão competitivo dos países desenvolvidos e explorando o mercado consumidor, em alguns casos com incentivos do governo brasileiro de atração do capital estrangeiro, como a isenção de impostos.

Ainda nos anos 50, com o ingresso do capital estrangeiro, em busca de mercado e mão de obra, no Brasil e em muitos países emergentes da América Latina, o país passou a se submeter às imposições das multinacionais, com destaque para a indústria automobilística, tendo como consequência o uso da rodovia como principal via de transporte em um país com aproximadamente 8,5 milhões de km² e o uso de veículos particulares.

Atualmente, a precariedade e o alto custo do sistema de transporte nacional e sul-americano dificultam o fluxo turístico doméstico e entre as nações mais próximas.

Exposição “Disobedient Objects” no museu Victoria and Albert, em Londres (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Exposição “Disobedient Objects” no museu Victoria and Albert, em Londres (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

A falta de qualificação dos trabalhadores e de maiores investimentos em educação, nos países emergentes, que se aproveitam da vantagem competitiva de uma mão de obra barata em indústrias intensivas como modelo de crescimento econômico, retém grande parte da população sobrepujada a longas jornadas de trabalho mal remunerado, as quais impedem a população de consumir pacotes de viagem, inclusive domésticos, por falta de tempo livre e dinheiro.

VisitBritain fomentou um questionário no Nation Brands Index (2009) para entender qual era a importância dos feriados e das atividades de lazer na vida das pessoas de diversas nações.

Países como Argentina e Brasil elencaram “minha carreira” como uma das três maiores prioridades na vida, enquanto países “desenvolvidos” como a Inglaterra elencaram “minha carreira” como a nona prioridade na vida, para baixo, demonstrando que, em países “desenvolvidos”, a população destina maior parte do seu tempo para a saúde, lazer e turismo.

Experimentando fígado de carneiro em York (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Experimentando fígado de carneiro em York (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Como divulgado pela BBC Brasil, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, o salário médio do brasileiro é de US$ 778,00 por mês, enquanto no Reino Unido o valor chega a US$ 3065,00.

Trabalhadores do McDonald’s, que realizam quase a mesma função em muitos países do mundo, recebem um salário inicial de aproximadamente 970 libras, ou R$3.000, em Londres, já em São Paulo, o ordenado não chega a ser um terço desse valor.

Todavia uma das consequências do aumento dos salários em países emergentes é uma redução de seu poder de atração de investimentos externos em setores intensivos em mão de obra, dos quais o Brasil é dependente.

Passeio por Newcastle upon Tyne (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Passeio por Newcastle upon Tyne (Foto: Luiz Renato Ferreira Gonçalves)

Além dos fatores infraestruturais e econômicos que dificultam a existência de uma rede sul americana de turismo com alta quantidade de fluxos, os países do sul enfrentam, ainda, uma questão sociocultural e política relacionada à colonialidade das suas formações que afeta a classificação social da população mundial.

O caráter colonial, mais duradouro que o próprio colonialismo, transpassa as dimensões do poder mundial, corroborando com a maneira de pensar eurocêntrica, que coloca as ações e os interesses europeus como sendo mais importantes e avançados, atraindo assim o significativo fluxo e o alto gasto de viagens com destino à Europa em detrimento das viagens intra-continentais na América do Sul.

Referências:

ONS Est. Workforce Jobs, Tourism Alliance – UK Tourism Statistics, 2014.

Tourism: jobs and growth, Visit Britain / Deloitte, 2013.

Visit Britain, Overseas Visitors to Britain, 2010.

Further Eurostat information, Main tables and Database. 2015.

BBC Brasil, 2013.

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